A Binance afirmou nesta sexta-feira (30) que os investimentos de seus clientes brasileiros continuam seguros após o ataque hacker de quinta-feira (29), que resultou no roubo de US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões) em criptomoedas, segundo o Olhar Digital.

De acordo com a empresa, os ativos dos clientes brasileiros ficam em cold wallets, as chamadas carteiras frias, que mantêm as chaves de acesso desconectadas da internet. A corretora também diz cumprir a regra do Banco Central que exige a separação entre os recursos dos clientes e os da própria empresa.

Apesar da garantia, os saques de criptomoedas continuam temporariamente suspensos enquanto a Binance faz verificações em seus sistemas. A corretora classifica a medida como preventiva e prevê restabelecer as retiradas em até 45 horas. Os depósitos não foram afetados, e os demais serviços funcionam normalmente.

Em nota, a empresa pediu desculpas pelos transtornos e afirmou que "a segurança dos ativos virtuais de nossos clientes continua sendo nossa maior prioridade".

O ataque provocou quedas no mercado de criptomoedas e atingiu empresas e fundos ligados ao setor. As cotações na sexta-feira eram as seguintes:

  • Criptomoedas: por volta das 14h24, o Bitcoin e o Ether recuavam mais de 4%, cotados a US$ 77.274,30 (cerca de R$ 417,3 mil) e US$ 2.245,39 (R$ 12,1 mil), respectivamente. O BNB, ligado à Binance, caía 6%, para US$ 700,80 (R$ 3,8 mil).
  • Ações nos Estados Unidos: os papéis da Coinbase recuavam mais de 13%, e os da Strategy, empresa conhecida por seus investimentos em Bitcoin, mais de 8%.
  • Fundos na B3: por volta das 12h40, o HASH11 recuava 2,64%, e o QBTC11, atrelado ao Bitcoin, caía 3,94%.

A separação de recursos exigida pelo Banco Central não elimina a possibilidade de ataques hackers nem garante o ressarcimento de eventuais perdas. As criptomoedas também não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para André Matos, CEO da MA7 Capital, o principal risco imediato para os clientes da Binance é ficar temporariamente sem acesso aos recursos, e não necessariamente perder os investimentos de forma definitiva.

A corretora prometeu cobrir os prejuízos com seu fundo de emergência, recursos próprios e valores roubados que já foram bloqueados. Matos ressalta, porém, que a capacidade da empresa de arcar com todas as perdas ainda não foi comprovada de forma independente. "Há ainda um ponto que muita gente não percebe: a promessa cobre os ativos roubados, não a queda de preço", afirma.

Ou seja, mesmo investidores cujas criptomoedas não foram diretamente atingidas podem perder dinheiro com a desvalorização. Celso Camilo, doutor em Inteligência Artificial pela Universidade Federal de Goiás (UFG), avalia que quem usa outras plataformas não está necessariamente exposto ao ataque, embora também possa sentir os efeitos da queda generalizada do mercado.

Para se proteger, o primeiro passo é verificar onde as criptomoedas estão armazenadas e qual instituição responde pela custódia. Segundo Matos, quem mantém os ativos na conta da Binance está diretamente exposto ao problema. Já quem usa uma carteira própria, com controle exclusivo das chaves, não tem esses ativos diretamente atingidos pelo ataque, embora continue sujeito às oscilações de preço.

O especialista recomenda ativar a autenticação em duas etapas, guardar os comprovantes dos investimentos e desconfiar de mensagens que prometam liberar saques em troca de senhas ou dados pessoais. Ele também aconselha não concentrar todos os investimentos em uma única corretora. Para quem pretende manter criptomoedas por períodos prolongados, considera importante avaliar o uso de uma carteira própria, de preferência física, com cuidado especial na proteção das palavras de recuperação.

O roubo é considerado o maior já registrado no setor de criptomoedas. Segundo as empresas americanas TRM Labs e Chainalysis, os responsáveis seriam hackers ligados à Coreia do Norte. A Binance, no entanto, informou que sua investigação ainda não identificou os criminosos. De acordo com a Reuters, a corretora trabalha com autoridades policiais de diferentes países, entre elas o FBI (Departamento Federal de Investigação) e o Serviço Secreto dos Estados Unidos (USSS).

Até agora, cerca de US$ 3 bilhões (R$ 16,2 bilhões) em criptomoedas roubadas foram localizados. Parte desse valor foi bloqueada com a ajuda de outras empresas do setor, o que não significa que o dinheiro tenha sido recuperado.

No início, a Binance suspeitou que os invasores tivessem acessado o computador de um de seus engenheiros. Depois, informou ter identificado outras possíveis falhas exploradas pelos criminosos. Segundo a TRM Labs, os hackers comprometeram o sistema responsável por autorizar transferências de criptomoedas.

A maior parte do roubo ocorreu em cerca de 20 minutos, por volta das 17h (horário de Brasília). Em seguida, os criminosos movimentaram rapidamente os valores para dificultar o rastreamento e o bloqueio.