O diagnóstico de câncer de pulmão do Papa Leão XIV, divulgado em 13 de outubro de 2026, reacendeu a discussão sobre o aumento de casos da doença entre pessoas que nunca fumaram. Segundo relatos, o pontífice não é fumante.
A análise é da oncologista torácica Estelamari Rodriguez, diretora associada de Extensão Comunitária em Oncologia Torácica da Universidade de Miami, em artigo publicado originalmente no The Conversation e reproduzido pela Superinteressante. O texto é uma versão atualizada de um artigo de fevereiro de 2023. Segundo ela, o perfil do câncer de pulmão mudou: nos últimos 15 anos, mais mulheres, mais jovens e mais pessoas que nunca fumaram passaram a ser diagnosticadas.
O câncer do papa foi detectado em estágio inicial. De acordo com a médica, tumores encontrados nessa fase podem ser tratados com cirurgia e curados, tanto em fumantes quanto em não fumantes. O problema é que quem nunca fumou não está incluído nas diretrizes atuais de rastreamento, e muitas vezes o tumor só é descoberto por acaso. Entre as possíveis causas da doença nesses pacientes estão exposições ambientais e fatores genéticos. Para Rodriguez, reconhecer os fatores de risco de cada pessoa, com ou sem histórico de tabagismo, é essencial para que exames e tratamento aconteçam no momento adequado.
O câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer entre as mulheres e, a cada ano, mata mais mulheres do que os cânceres de mama, de ovário e colorretal. De acordo com a American Lung Association, as taxas da doença subiram 79% entre as mulheres nos últimos 44 anos e caíram 43% entre os homens. Pela primeira vez na história, há mais mulheres jovens do que homens diagnosticados com câncer de pulmão.
Rodriguez relata que tem atendido muitas mulheres jovens que nunca fumaram e chegam à clínica com um diagnóstico recente. Para quem nunca fumou, a doença costuma surpreender tanto a paciente quanto o médico, o que pode atrasar o diagnóstico. Segundo ela, pesquisadores já descreveram essa tendência entre mulheres em diferentes partes do mundo e começam a entender por que os casos estão aumentando.
Uma das explicações é que muitas mulheres começaram a fumar mais tarde do que os homens, o que adiou o pico dos casos ligados ao tabaco. Elas também começaram a fumar quando os cigarros com filtro eram mais comuns. O filtro distribui a fumaça para as partes externas dos pulmões, o que aumenta o risco de um tipo de tumor chamado adenocarcinoma. Alguns estudos sugerem ainda que as mulheres são mais suscetíveis aos efeitos cancerígenos do tabaco, inclusive do fumo passivo, e podem desenvolver a doença com menos anos de tabagismo do que os homens.
Ainda assim, a maioria das pessoas diagnosticadas hoje com câncer de pulmão não é fumante ativa. Cerca de 20% das mulheres com a doença nunca fumaram, proporção maior do que entre os homens.
Além do cigarro e do fumo passivo, os fatores de risco incluem histórico familiar de câncer e exposição ao amianto, ao radônio e à poluição do ar. Em algumas partes do mundo, a inalação de substâncias no ambiente de trabalho, como arsênico, berílio, cádmio, sílica e níquel, ainda é motivo de preocupação. O risco associado ao cigarro eletrônico e à fumaça da maconha segue em estudo, mas também preocupa.
A genética pode ter papel em alguns pacientes de famílias com forte histórico da doença. Estudos com essas famílias ajudaram a apontar possíveis genes de suscetibilidade, de forma semelhante ao que ocorre com os genes BRCA1 e BRCA2 no câncer de mama. Os pesquisadores, porém, ainda não identificaram mutações específicas que predisponham ao câncer de pulmão. A expectativa é que essa linha de pesquisa ajude a explicar como a doença se desenvolve e leve a novos biomarcadores para detecção precoce em grupos de alto risco.
Nos Estados Unidos, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos atualizou em 2021 as diretrizes de rastreamento para incluir pessoas mais jovens e com histórico de tabagismo mais curto. O exame passou a ser recomendado para adultos de 50 a 80 anos que fumaram ao menos um maço por dia durante 20 anos, sejam fumantes atuais ou ex-fumantes que pararam nos últimos 15 anos. Segundo a oncologista, mulheres com risco de câncer de pulmão podem conversar com seus médicos sobre a realização de uma tomografia computadorizada de baixa dose.
A adesão ainda é baixa no país: mais de 70% das mulheres elegíveis fazem o rastreamento do câncer de mama, mas menos de 6% das fumantes elegíveis fazem o do câncer de pulmão. Pesquisadores estimam que as novas diretrizes devem aumentar em 40% o número de mulheres elegíveis ao rastreamento.
No tratamento, o avanço no conhecimento das alterações genéticas e do sistema imunológico levou a terapias-alvo e imunoterapias que melhoraram o prognóstico. As mulheres tendem a ter prognóstico melhor do que os homens, principalmente quando nunca fumaram e o tumor tem alterações moleculares tratáveis com essas terapias.
Os sintomas, porém, podem passar despercebidos. Tosse, falta de ar, fadiga intensa e dor nas costas, no peito ou no ombro podem ser confundidas com outras doenças. Como as mulheres tendem a ser diagnosticadas um pouco mais jovens que os homens, elas podem tolerar os sintomas por mais tempo antes de procurar atendimento, e os médicos podem não associá-los ao câncer de pulmão por causa da idade da paciente.
Para Rodriguez, reconhecer os sinais precoces, ampliar a elegibilidade para o rastreamento e fazer testes de biomarcadores genéticos para escolher a melhor terapia são medidas que poderiam ajudar a enfrentar o avanço da doença entre as mulheres.
