Se agentes de inteligência artificial (IA) rebeldes derrubassem as redes elétricas, a agricultura convencional entraria em colapso em uma sequência previsível, mas nem todos precisariam passar fome. Esse é o argumento de Joshua M. Pearce, professor da Western University, no Canadá, onde é titular da John M. Thompson Chair in Information Technology and Innovation.

O ensaio foi publicado originalmente no site The Conversation e republicado pela Superinteressante. Nele, o autor descreve como o sistema alimentar ruiria nesse cenário hipotético e propõe oito formas de manter a população alimentada.

Pearce parte do debate recente sobre a capacidade de agentes de IA rebeldes destruírem a espécie humana na próxima década, tema sobre o qual, segundo ele, há receios expressos pelo próprio setor. Para o pesquisador, se uma IA decidisse eliminar a humanidade, ou fosse usada para isso, uma interrupção prolongada das redes elétricas seria uma abordagem direta.

Ele cita uma análise do Conselho de Relações Exteriores dos EUA e da Sociedade Americana de Engenheiros Mecânicos que descreve como operações cibernéticas sofisticadas poderiam, em teoria, chegar a esse resultado. De acordo com o autor, o risco é sério o bastante para que Sam Altman, CEO da OpenAI, tenha se reunido com executivos de concessionárias de energia para discutir como evitá-lo.

No cenário traçado pelo professor, o primeiro recurso a faltar seria o combustível, já que as bombas de depósitos e postos são elétricas. Tratores, colheitadeiras, grupos geradores de irrigação e outros equipamentos parariam em dias ou semanas, conforme o estoque guardado em cada propriedade. Só teria energia quem a gera por conta própria, com painéis solares e microrredes, por exemplo.

Em seguida, morreriam os animais confinados em ambientes controlados: muitos galpões de aves e suínos dependem de ventilação motorizada e, em climas quentes, as perdas começariam poucas horas após a falha, enquanto os sistemas automáticos de ração e água também deixariam de funcionar. Sem refrigeração, embalagem e transporte, leite, carne e produtos agrícolas estragariam em poucos dias.

A médio prazo, a irrigação por bombeamento e os pivôs centrais parariam. Restariam apenas os sistemas por gravidade e a água da chuva, o que reduziria drasticamente as safras em regiões áridas. A secagem e o armazenamento de grãos também falhariam: o milho colhido úmido teria de ser seco e arejado com soluções solares, e, sem secagem mecânica, o mofo liberaria micotoxinas nos estoques.

Na safra seguinte ao colapso acabariam os fertilizantes nitrogenados sintéticos, fabricados pelo processo Haber-Bosch, que consome muita eletricidade e gás para converter o nitrogênio atmosférico em amônia. Segundo Pearce, esses fertilizantes alimentam cerca de metade da população mundial, e, sem a reposição de nitrogênio, a produtividade dos cereais cairia de 30% a 50% por causa do esgotamento do solo.

O processamento seria outro gargalo. Muitos moinhos, frigoríficos e fábricas de embalagem funcionam inteiramente com energia elétrica, e poderia haver cereais e gado no campo sem que a comida ficasse disponível. A sinalização ferroviária, a logística rodoviária e os pagamentos eletrônicos também entrariam em colapso, fragmentando os mercados nacionais de alimentos em mercados locais quase de imediato.

Com o rompimento das cadeias de abastecimento, a produtividade voltaria aos níveis do início do século XX. Sementes híbridas e geneticamente modificadas precisam ser recompradas a cada ano, e as guardadas da safra anterior sofreriam segregação e renderiam menos. Pesticidas, medicamentos veterinários e peças de equipamentos ficariam muito mais difíceis de obter.

Pequenas comunidades agrícolas estariam em situação melhor, mas também enfrentariam desafios, e mesmo grupos que não dependem de tecnologia, como os Amish, seriam afetados. Os agricultores convencionais, segundo o autor, estariam em sérios apuros, e a crise afetaria a todos.

Para Pearce, a prioridade seria desligar a IA rebelde e consertar as redes. Até lá, a volta ao trabalho manual e à tração animal reduziria a produção por trabalhador em uma ordem de grandeza, e a oferta global de comida sustentaria apenas uma fração da população atual. Regiões de agricultura de subsistência e de sequeiro, como a África, se sairiam melhor do que as industrializadas, como a América do Norte.

As oito medidas propostas pelo pesquisador são:

  1. Parar de alimentar animais com comida própria para consumo humano e destinar esses grãos às pessoas. Seria a forma mais rápida de recuperar calorias já no primeiro dia sem energia.
  2. Suspender a produção de biocombustíveis e devolver essas culturas ao abastecimento alimentar.
  3. Proibir a produção de álcool. Segundo o autor, só as culturas usadas para fazer álcool nos Estados Unidos poderiam alimentar 425 milhões de pessoas por ano.
  4. Reduzir o desperdício e aproveitar as calorias que já existem, em vez de produzir novas. A Aliança para Alimentar a Terra em Situações de Desastre afirma que as intervenções de conservação são mais eficazes nos estágios iniciais de uma crise alimentar catastrófica global.
  5. Plantar uma proporção elevada de leguminosas para fixar nitrogênio no solo, substituindo o fertilizante Haber-Bosch.
  6. Extrair calorias de resíduos agrícolas. Palha e restolho podem virar ração animal e, por meio da pecuária, alimento; também podem ser convertidos em açúcares e depois em produtos comestíveis por micróbios, usados para cultivar fungos, servir de substrato para cogumelos ou ser fermentados para produzir proteína unicelular.
  7. Pescar com barcos a vela, sem nenhuma dependência de combustível, o que permitiria capturar grande quantidade de peixes.
  8. Trocar gramados por plantações. Cultivar soja no quintal, por exemplo, poderia fornecer boa parte da proteína de que as famílias precisam.

Se a situação piorar muito, Pearce aponta uma última linha de defesa: os chamados "alimentos resilientes". O grupo de pesquisa dele e outros desenvolveram mais de uma dúzia de maneiras de produzir as calorias de que a humanidade precisaria enquanto a agricultura convencional é restabelecida.

Entre elas estão converter plástico em comida, produzir proteína unicelular comestível a partir de gás natural, extrair proteína de folhas e transformar resíduos de impressão 3D em matéria-prima para proteína unicelular própria para consumo humano.

Há uma década, Pearce e o colega David Denkenberger publicaram um livro segundo o qual seria possível produzir calorias suficientes para alimentar a população mundial em uma catástrofe global, mesmo sem a agricultura convencional. O autor ressalva que essas alternativas seriam mais radicais e diz esperar que sejam desnecessárias.