Um artigo de análise publicado pela Jacobin Brasil defende que a onda global de protestos liderados por jovens não seja descartada como mero rótulo de marketing. Para o autor, a identidade geracional pode ser vista como uma forma de as pessoas darem sentido às oportunidades que têm na vida e às que lhes são negadas.

O ponto de partida do texto é a revista The Economist, que, em meados do ano, dedicou uma edição inteira a "contra-atacar" o chamado "socialismo da Geração Z", tratado pela publicação como uma "ameaça à prosperidade". Segundo o artigo, a revista convocou outros liberais defensores do livre mercado a "pararem de se desculpar" e a apresentarem uma "defesa mais incisiva do capitalismo". A Economist recebeu muitas respostas críticas e depois publicou uma seleção delas numa seção intitulada "Fomos rápidos demais em atacar o socialismo da Geração Z?".

O fenômeno em questão, de acordo com o autor, é o apoio crescente dos jovens à taxação de bilionários, à socialização da economia e ao fim do que ele chama de genocídio em Gaza. Como exemplos, o texto cita a popularidade do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, do líder do Partido Verde da Inglaterra, Zack Polanski, e do candidato à presidência francesa Jean-Luc Mélenchon.

Para o autor, porém, a verdadeira reação veio das ruas. Na Índia, no mesmo dia em que saiu o editorial da Economist, dezenas de milhares de jovens tomaram as ruas de Nova Déli, entraram em confronto com a polícia e paralisaram o centro da capital. Segundo o artigo, o estopim foram declarações do presidente do Supremo Tribunal da Índia, Surya Kant, que comparou jovens desempregados a "baratas" e "parasitas" durante uma audiência na Suprema Corte. O movimento começou com reivindicações sobre educação e depois passou a incluir demandas por reformas eleitorais e econômicas.

O texto situa esses atos numa série de levantes da Geração Z que se concentrou inicialmente na Ásia e na África. No Nepal, em Madagascar, em Bangladesh e no Sri Lanka, movimentos estudantis derrubaram governos. Em outros lugares, os protestos foram brutalmente reprimidos; em Mianmar, culminaram em guerra civil.

Neste outono, segundo o artigo, a mobilização chegou a vários países europeus. Na França, na Bélgica e na Itália, estudantes do ensino médio lideram protestos contra a austeridade na educação. Na Espanha e em Portugal, jovens estão à frente de manifestações contra a alta dos preços dos imóveis. Na Albânia, a chamada Revolução dos Flamingos exige a renúncia do primeiro-ministro por causa de um desenvolvimento turístico apontado como prejudicial ao meio ambiente e à sociedade, incluindo um resort controverso apoiado por Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na Sérvia, o movimento Lista Estudantil conquistou maioria absoluta nas eleições parlamentares de domingo, depois de dois anos de protestos anticorrupção e contra a mineração liderados por jovens.

O autor reconhece que o rótulo "Geração Z" dificilmente dá conta de movimentos tão diversos e que, em muitos casos, é um clichê imposto de fora por especialistas que conhecem pouco as dinâmicas locais. Ainda assim, afirma que a geração se tornou um dos principais vetores de organização e identificação desses movimentos. Os exemplos são o Gen Z Mada, em Madagascar, o Gen Z 212, no Marrocos, e o Gen Z regelt, na Alemanha, além do grito "Vocês mexeram com a geração errada!", nascido no movimento de desobediência civil de Mianmar em 2021, e do slogan francês "Génération 6–7 refait Mai 68" (A Geração 6–7 está repetindo Maio de 68), que viralizou.

O artigo também discute a origem dessas categorias. Segundo o texto, designações como baby boomers, Geração X, millennials e Geração Z não vêm da teoria marxista, mas de consultores empresariais, institutos de pesquisa e think tanks predominantemente estadunidenses, como o Pew Research Center. Desde os anos 1960, corporações de marketing dos EUA construíram uma indústria lucrativa em torno do estudo de supostas coortes geracionais.

A formulação mais influente, segundo o autor, é a de William Strauss e Neil Howe, autores de Generations (1991) e The fourth turning (1997). Para eles, a história avança em ciclos de 80 a 100 anos, divididos em quatro "viradas" que se sucedem sempre na mesma ordem, cada uma associada a um arquétipo geracional: o profeta, o nômade, o herói e o artista. O artigo classifica essas ideias como esotéricas e observa que elas têm admiradores em diferentes campos políticos. Steve Bannon descreveu The fourth turning como "fundamental para sua visão de mundo" e baseou nele o documentário Generation Zero, de 2010. Al Gore chamou Generations de "o livro mais estimulante e politicamente relevante sobre a história estadunidense que já li" e enviou um exemplar a cada membro do Congresso. Bill Clinton, por sua vez, teria sido influenciado pela obra ao escolher Gore como vice na eleição de 1992.

O texto lembra que muitos pensadores da esquerda desconfiam desse enquadramento. Vincent Bevins, citado no artigo, diz que afirmar que um levante será "liderado pela Geração Z" equivale a pouco mais do que dizer que ele acontecerá em 2025 e que "a estrutura geracional é um sintoma de pobreza intelectual". Adolph Reed Jr. vê a perspectiva geracional como produto de institutos de pesquisa e consultores, oferecida como alternativa à organização de bases sólidas em torno de questões, programas e visão política. O autor concorda que falar em divisões geracionais pode obscurecer as relações capitalistas no centro da crise, mas sustenta que muitos jovens vivem os problemas atuais em termos explicitamente geracionais.

Para defender esse ponto, o artigo traz números. Segundo o texto, mais de 2 bilhões de pessoas pertencem à Geração Z, nascida entre 1997 e 2012, a maior geração de todos os tempos; somada à Geração Alfa, ela representa quase metade da população mundial. Nove em cada dez jovens trabalhadores em países de baixa e média-baixa renda estão na informalidade e sem proteção, e o desemprego juvenil vem aumentando. O autor afirma que o quadro piorou com o que chama de guerra de agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que, segundo ele, elevou a inflação e provocou escassez global de petróleo, gás, fertilizantes e produtos petroquímicos.

De acordo com o artigo, os protestos no Sul Global giraram principalmente em torno da corrupção, enquanto os europeus se concentraram na austeridade e no custo de vida. O autor liga as duas pautas a estratégias da classe dominante diante da crise da economia global e cita outros temas recorrentes: aluguéis, alistamento militar obrigatório, mudanças climáticas e a ansiedade com os impactos da inteligência artificial.

O texto se apoia ainda em dois autores. Em The alibi of capital, o teórico político e historiador Timothy Mitchell descreve a injustiça intergeracional como característica fundamental do capitalismo, "uma forma de vida construída sobre a destruição dos meios de subsistência do futuro". Em Generation left, o economista político Keir Milburn propõe o conceito de "gerações políticas", grupos que se unem em torno de uma interpretação comum de eventos como pandemias ou crises financeiras. Dentro de uma mesma faixa etária, porém, pode haver respostas diferentes, o que abre espaço para as diferenças de classe.

Segundo o artigo, muitos manifestantes reconhecem essa interação entre classe e geração, e um elemento definidor das revoltas recentes tem sido o ódio de classe contra os "nepo babies", filhos de políticos e de outras elites que ostentam sua riqueza.