The Legend of Zelda: Ocarina of Time ganha uma nova versão para Nintendo Switch 2 em 5 de novembro. Para o psicólogo Manoel Acioli, quem voltar a Hyrule pode reencontrar mais do que cenários e desafios: também as lembranças de quando jogou pela primeira vez e uma outra versão de si mesmo. Acioli, doutor em psicologia e especialista em terapias gamificadas e RPG terapia, apresentou a análise em artigo publicado pela Superinteressante.
Lançado em 1998 para o Nintendo 64, Ocarina of Time acompanha Link na missão de salvar o reino de Hyrule da ameaça de Ganondorf, numa jornada por florestas, vilarejos e templos. Em certo momento, o herói retira a Espada Mestra do pedestal, atravessa sete anos e desperta mais velho. Mais adiante, passa a poder viajar entre as duas épocas.
Para Acioli, a passagem dialoga com a experiência de quem retorna ao jogo depois de adulto: Link atravessa o tempo dentro da aventura, enquanto o jogador percebe o tempo que passou fora dela. A diferença, segundo ele, é que reiniciar a partida é possível, mas reunir de novo as condições da primeira jogada é muito mais difícil.
Ao despertar sete anos depois, Link encontra uma Hyrule transformada pelo domínio de Ganondorf, e lugares conhecidos aparecem em outras condições. O psicólogo argumenta que é justamente a familiaridade que torna a mudança evidente: se tudo fosse inteiramente estranho, haveria descoberta; como algo permanece, surge a possibilidade de perceber uma perda. Ele lembra que o próprio manual do jogo destaca a transformação do reino nesse intervalo e as consequências das ações da infância sobre a etapa adulta.
Na leitura de Acioli, a cena funciona como uma figura da experiência de crescer. Um lugar da infância continua localizável, mas isso não garante que possamos habitá-lo como antes: as pessoas mudaram, as relações assumiram outras formas e o próprio visitante ganhou preocupações que antes desconhecia. No jogo, a mudança vem numa ruptura abrupta. Na vida, costuma se tornar perceptível no retorno, quando a comparação reúne num único encontro transformações que levaram anos.
A possibilidade de alternar entre as idades também tem paralelo com o ato de rejogar. Link volta a um momento anterior, mas quem está no controle conserva o que aprendeu na outra época. Da mesma forma, quem revisita Ocarina of Time já conhece caminhos que antes exigiam exploração. Para o autor, esse saber muda a travessia: o percurso familiar pode trazer alívio, mas já não produz a mesma surpresa.
Acioli distingue lembrar como o jogo funciona de recordar os momentos vividos enquanto se jogava. É possível reconhecer comandos e antecipar a solução de um desafio sem que isso venha acompanhado da memória de quem estava ao lado ou do que se sentiu ao descobrir o que havia depois de uma passagem. Daí viriam sentimentos inesperados, como conhecer o caminho e sentir falta de quem o percorreu junto, ou reconhecer a música e lembrar de uma época em que as preocupações eram outras.
Ele acrescenta que experiências de separação ou mudanças importantes podem dar outro peso a trechos que, na infância, pareciam apenas mais uma etapa da aventura. É o que o autor chama de "paradoxo do retorno": quanto mais se reconhece uma passagem, mais se percebe a distância em relação à primeira vez.
Para sustentar a análise, o artigo cita pesquisas publicadas em 2026. Uma meta-análise de Evan Weingarten, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, reuniu mais de 400 experimentos sobre os desencadeadores da nostalgia e seus benefícios. O trabalho indicou que situações de ameaça psicológica podem despertar nostalgia e que essa emoção pode favorecer o bem-estar.
A explicação discutida no estudo é que recordar acontecimentos pessoalmente importantes oferece recursos para enfrentar dificuldades do presente: diante da solidão ou da perda de sentido, por exemplo, lembranças de experiências compartilhadas podem recuperar sentimentos de pertencimento e de conexão com a própria história. Os benefícios, porém, variam conforme características individuais e a forma como a nostalgia é evocada.
No mesmo ano, Michael Mask, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, publicou dois experimentos sobre o tema. Participantes que escreveram sobre uma lembrança nostálgica passaram a avaliar a própria trajetória como mais rica em experiências interessantes, variadas e capazes de transformar sua maneira de entender o mundo, em comparação com os que escreveram sobre um acontecimento cotidiano. O fator que mais se destacou foi o caráter incomum dos episódios recordados: as memórias nostálgicas traziam à atenção acontecimentos que fugiam da rotina e tornavam a história pessoal mais diversa e significativa.
A partir desses resultados, Acioli sustenta que o valor de uma lembrança pode incluir a complexidade do que ela faz perceber. No caso de Ocarina of Time, a satisfação de reconhecer um cenário pode conviver com a consciência do tempo que passou, e a lembrança de ter jogado com alguém pode ser afetuosa e dolorosa ao mesmo tempo, sem que o passado precise ser descrito como uma época inteiramente feliz. Para o psicólogo, quem reencontra o jogo depois de anos passa a incorporar à experiência da obra a própria distância entre as partidas.
