Um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) reconstitui como era a indústria de Natal em meados dos anos 1980. Segundo os registros reunidos pelo economista Eriberto Alves Medeiros Neto, autor do estudo, havia em 1985 472 unidades fabris e mais de 20 mil empregos formais. A pesquisa foi divulgada pelo site Brechando.
Diferentemente de outros países, o Brasil só se industrializou no século XX. Em Natal, a atividade industrial surgiu no pós-guerra e se intensificou na década de 1970, com a criação de incentivos fiscais. Antes disso, algumas fábricas da capital nasceram graças à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), estatal criada em 1959 para investir na economia da região.
De acordo com o economista, Natal recebeu muitos investimentos a partir dos anos 1970, ligados ao II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) e à atuação da Sudene. Com programas de incentivo fiscal, como o Fundo 34/18-Finor, o Rio Grande do Norte viveu, nas palavras do estudo, um "surto de modernização capitalista".
Outro marco foi a chegada da Petrobras, em 1973/74, que dinamizou o interior do estado, sobretudo a região de Mossoró, com milhares de empregos na extração e produção de petróleo e com recursos de royalties injetados na economia local.
Na década de 1980, apesar da resistência de alguns empresários, a industrialização cresceu bastante. A pesquisa associa esse avanço à migração do latifúndio para o setor têxtil, principalmente depois da crise do algodão provocada pela praga do bicudo. Segundo Medeiros Neto, Natal era vendida na época como a terra da oportunidade industrial e turística. A capital recebia tanto técnicos qualificados para o setor de petróleo quanto mão de obra sem qualificação, que ocuparia as periferias.
Nesse período, o estado buscava áreas com infraestrutura estatal já pronta. Enquanto as indústrias têxtil e de alimentos estagnavam em algumas áreas, a extração mineral e o turismo despontavam como novos motores da economia.
"No caso de Natal, esse processo foi mediado pelos incentivos da Sudene. A criação do Distrito Industrial em Parnamirim exemplifica a tentativa de industrialização regional. Em Natal, o resultado foi a formação de um vasto exército industrial de reserva, que se assentou em ocupações periféricas, como a Zona Norte de Natal e áreas de Parnamirim. O capital investido na região buscava menos o bem-estar social e mais a reprodução em si, através de baixos salários e incentivos fiscais", afirma o economista.
Com o enfraquecimento do modelo centralizado de desenvolvimento regional e da própria Sudene, em um contexto que inclui a Constituição Federal de 1988, ganhou espaço o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Industrial (Proadi), instituído pela Lei Estadual nº 6.000/1987. Para o pesquisador, o programa buscou atrair capital externo por meio da "guerra fiscal". "Embora esses mecanismos tenham fomentado a criação de novos distritos industriais, eles também aprofundaram a concentração das atividades na Região Metropolitana de Natal", disse.
O Proadi se baseava no diferimento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Ao contrário dos incentivos federais, oferecia desoneração fiscal direta às empresas, que em troca deveriam gerar empregos e descentralizar a produção. Do fim dos anos 1980 a meados da década de 1990, o programa foi decisivo para a instalação de indústrias têxteis, de calçados e de processamento de alimentos na Região Metropolitana de Natal, embora boa parte das empresas beneficiadas pertencesse aos ramos industriais tradicionais do estado.
O programa existe até hoje e, junto com a construção de conjuntos habitacionais, ajudou a urbanizar cidades da Grande Natal e a Zona Norte da capital.
