Comer o próprio vômito pode parecer bizarro para um ser humano, mas é um hábito relativamente comum entre os cães. Assim como comer cocô e rolar na lama, o comportamento, na maioria das vezes, não é sinal de problema de saúde, segundo a Superinteressante. A revista aponta possíveis explicações e uma distinção importante: muito do que os tutores chamam de vômito é, na verdade, regurgitação.
A primeira hipótese é evolutiva. O material expelido tem um cheiro que pode atrair predadores e sinalizar que o animal está fraco e vulnerável. Ao comê-lo de volta, o cão apagaria esse rastro e ficaria mais escondido na natureza. A ideia é considerada por cientistas, mas ainda não tem comprovação científica definitiva.
Outra explicação vem do começo da vida. No desmame, quando o filhote passa a comer alimentos sólidos, a mãe pode regurgitar comida para ele. Como o alimento já chega parcialmente "quebrado", fica mais fácil de comer. Cães que passaram por isso podem manter o hábito na vida adulta.
Há ainda a chamada defesa de recursos. Alguns cachorros ficam agressivos em relação à comida porque têm medo de que alguém a roube, um traço também evolutivo, já que proteger recursos é essencial para a sobrevivência na natureza. Para esses animais, o vômito pode ser entendido como mais um alimento a proteger.
O olfato também pesa, já que é o sentido mais importante para os cães. Onde o humano sente apenas mau cheiro, o cachorro reconhece o aroma da refeição original. Por isso, ele não interpreta o vômito como dejeto, e sim como uma chance de comer mais.
Para entender o comportamento, é preciso separar vômito de regurgitação. O vômito envolve contrações abdominais e traz material digerido e bile, um líquido amarelado. É involuntário, não acontece necessariamente logo após a refeição e pode ter causas como infecções, úlceras e medicamentos. Antes de vomitar, o cão se levanta, contrai o abdômen e pode demonstrar apreensão.
Já a regurgitação é o material expelido do esôfago antes de chegar ao estômago e ao intestino. Costuma ocorrer logo depois de o animal comer, geralmente porque ele comeu rápido demais. Não há contração abdominal: o cachorro só abaixa a cabeça e a comida sai sem digestão, misturada com muco, o que pode torná-la atraente para ser ingerida de novo.
Essa diferença muda o risco. Voltar a comer a regurgitação não é um grande problema, mas comer o vômito pode exigir atenção. O vômito costuma ser provocado por algo que o animal não deveria ter ingerido e, ao abocanhá-lo outra vez, ele volta a consumir a toxina ou o alimento inadequado que causou o mal-estar. Além disso, o vômito tem alto nível de acidez, o que pode danificar o esmalte dos dentes e o revestimento do esôfago.
Em geral, o cão vomita algumas vezes até expelir o que causou o desconforto e depois para. É importante tirar do alcance dele o alimento ou a substância que fez mal, para que a situação não se repita. O alerta deve ser ligado quando o vômito se torna frequente, dura mais que o normal, contém sangue ou vem acompanhado de desidratação, falta de energia ou diarreia. Nesses casos, a orientação é procurar o veterinário.
A regurgitação provavelmente resulta de comer rápido demais e, em alguns animais, pode ser recorrente. Para evitá-la, é preciso reduzir a velocidade com que o cachorro come. Uma forma simples é oferecer porções menores com mais frequência, já que os cães tendem a ir mais devagar quando não há muita comida à frente. Também existem tigelas projetadas para desacelerar o consumo.
Em casas com mais de um cachorro, a recomendação é alimentá-los separadamente para evitar a sensação de competição. A proximidade pode gerar ansiedade e fazer com que os animais comam o mais rápido possível para impedir que o outro pegue sua comida.
