A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), confirmada nas urnas no domingo, foi interpretada por cientistas e ambientalistas como um marco para a proteção da Amazônia. Segundo o Startupi, em texto assinado por Ricardo Azevedo, o resultado também interessa aos setores da economia brasileira que dependem, direta ou indiretamente, da estabilidade climática proporcionada pela floresta.

A publicação cita reportagem do jornal americano The New York Times segundo a qual o Brasil detém cerca de 60% da Amazônia e o desmatamento caiu a níveis historicamente baixos durante o governo Lula, graças ao reforço da fiscalização ambiental e a políticas de proteção e restauração.

"O presidente Lula terá mais quatro anos para salvar a Amazônia", disse Carlos Nobre, professor de clima e sustentabilidade da Universidade de São Paulo (USP) e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, grupo que reúne centenas de pesquisadores dedicados ao estudo da floresta. Para ele, é evidente que o presidente dará continuidade às políticas de proteção do bioma. Se o petista tivesse perdido, afirmou o cientista, isso "teria sido um ecocídio".

O governo tem como meta acabar com o desmatamento ilegal até 2030 e apresentou um plano para restaurar grandes áreas de floresta. Nas negociações climáticas internacionais de 2023, o Brasil se comprometeu a reflorestar 6 milhões de hectares da Amazônia até 2030 e outros 18 milhões até 2050. Na avaliação do Startupi, o programa pode colocar o país na dianteira do mercado global de carbono e das cadeias produtivas sem desmatamento, cada vez mais exigidas pelos europeus.

Cientistas alertam que, sem controle do desmatamento, a Amazônia pode passar a receber muito menos chuva e se transformar, já em 2050, de floresta densa em um ecossistema mais seco, semelhante a uma savana. A mudança também atingiria o agronegócio do Centro-Sul, que depende dos chamados "rios voadores" para a irrigação natural das lavouras.

Do outro lado da disputa estava o senador Flávio Bolsonaro, que disse não acreditar que as mudanças climáticas sejam provocadas pelo homem e prometeu derrubar restrições à agropecuária e a outras atividades na Amazônia. Na campanha, ele declarou que "a melhor forma de tratar o tema ambiental é o que fizemos durante o governo Bolsonaro", em referência à gestão de seu pai, Jair Bolsonaro. Segundo o New York Times, nesse período o desmatamento aumentou, com a derrubada de mais de 17 mil milhas quadradas de floresta (cerca de 44 mil quilômetros quadrados).

A liderança indígena mobilizada contra o candidato da direita também celebrou a vitória de Lula. "Precisamos escolher indivíduos que não vão destruir nossos direitos, que não vão destruir nossas florestas e que não vão causar o tipo de impacto que vem de todo esse discurso de outros políticos sobre terras raras e mineração ilegal", afirmou Alessandra Korap Munduruku, uma das líderes do povo Munduruku na bacia do rio Tapajós.

O novo mandato, porém, começa em um momento de crescimento da direita no Legislativo. Em fevereiro, um Congresso Nacional conservador toma posse em Brasília, o que dificulta os planos da agenda ambiental do governo.

Ainda assim, a eleição de Lula funciona como um "contrapeso" vital, segundo Christian Poirier, diretor de programas da Amazon Watch, organização que monitora a floresta. "O Congresso teria trabalhado em sintonia com Bolsonaro para desmontar essas salvaguardas", afirmou. Na leitura do Startupi, a proteção ambiental segue como política de Estado no Executivo, mas a capacidade de conduzir a agenda verde dependerá de acordos políticos, e a agenda ESG das empresas brasileiras continuará sob avaliação no exterior.